Visitei Chandigarh em 2012. Eu estava hospedada em Nova Delhi e fiz uma viagem bate-e-volta de trem. Foi corrido e não consegui ver tudo em apeans um dia. Ainda assim, foi o suficiente para conhecer e dar uma volta nesta cidade que se tornou um marco na história do urbanismo. Neste texto, trago algumas impressões dos lugares que pude visitar.

Uma nova capital para o Punjab
Com a independência da Índia do Império Britânico, em 1947, e a partição e criação do Paquistão, a antiga capital da região do Punjab (Lahore) passou a pertencer ao Paquistão. O Punjab precisava portanto de uma nova capital. Em um primeiro momento, pensou-se em adaptar a estrutura do governo a uma cidade existente mas, em virtude da nova demanda populacional, com mais de 4,5 milhões de imigrantes provindos do Paquistão, chegou-se ao acordo de construir uma nova cidade do zero – Chandigarh.
Após a definição de um sítio, a contratação de urbanistas para desenvolverem o plano diretor foi efetuada. Jawaharlal Nehru, o primeiro ministro da época, contratou os americanos Albert Mayer e Matthew Nowicki. Mayer serviu de tenente na India durante a 2ª guerra, ocasião em que conheceu Nehru, e demonstrou-lhe o seu interesse de trabalhar em algum projeto para o país. Eles iniciaram o projeto porém, em agosto de 1950, o seu sócio morreu em um acidente de avião. Mayer então declarou que não conseguiria continuar o projeto sozinho e abandonou-o pela metade.
Após este choque, houve um momento de indecisão. Quem deveria herdar esse projeto, se encarregar da construção e concepção da nova capital? Após a discussão em torno de vários nomes, ficou decidico por Le Corbusier.





O Plano de Corbusier e a semelhança com Brasília
Ao visitar Chandigarh, a comparação com Brasilia torna-se inevitável. Chandigarh (1947) e Brasília (fundada em 1960) nasceram após o fim da segunda guerra mundial, com pouco mais de 10 anos de diferença entre elas. Em ambos os contextos, tratava-se de um momento de grande expectativa em relação ao futuro. Na Índia, com o fim de uma guerra religiosa e a separação do estado do Paquistão e, no Brasil, com a prosperidade e desenvolvimento econômico. O plano urbano de Brasília seguiu um modelo rodoviarista, priorizando o automóvel como principal meio de transporte.


Ambos os planos seguem os princípios da Carta de Atenas, de 1933, modelo de cidade progressista no qual as diferentes zonas são claramente delimitadas e separadas (habitar, trabalhar, lazer e circulação). Em Chandigarh, estas zonas são distribuídas por uma malha de setores, cada um medindo 1.200 x 800m. Em Brasília, temos as Superquadras residenciais, de 240 x 240m, que seguem o grande arco das asas do Plano Piloto.





De modo semelhante ao Plano Piloto de Lúcio Costa, no qual a praça dos três poderes – com o Palácio do Planalto (executivo), o Supremo Tribunal Federal (Judiciário) e o Congresso Nacional (legislativo) – ‘encabeça’ o conjunto, é no Capitol, no extremo norte de Chandigarh, que se situa o Secretariat, o High Court (Supremo Tribunal) e a Assembléia. Apesar de ocupar uma posição de evidência na malha, o Capitol se adequa à mesma, preservando a estrutura dos módulos. O Capitol corresponde à dimensão de 2 módulos unificados. Por outro lado, em Brasília, a praça dos três poderes ocupa uma posição hierárquica no plano e se distingue pela sua forma.

Em Chandigarh foi criado um lago artificial, bem como em Brasília. Esta é a principal área de lazer da cidade.
Enquanto em Brasilia, a cintura verde é ao longo da faixa residencial, em Chandigarh ela atravessa a cidade numa única faixa verde que corta a cidade no sentido norte sul. Um corredor verde com diversos jardins, entre eles o Rose Garden.
O setor comercial está concentrado no setor 17. Aqui há galerias organizadas em torno de uma grande praça, que propiciam o encontro e o passeio sob os pilotis. Este local me lembrou um pouco a tipologia do ‘Connaught Place’ em Nova Deli.

O Racionalismo encontra a Cultura Local


Os espaços públicos de Chandigarh são organizados e bem cuidados. Avistei muitas latas de lixo na rua, bicicletários, sinalizações. Apesar de um racionalismo no projeto, o momento da ocupação pode levar a uso inusitados em função das necessidades e da cultura local. Alguns pontos de ônibus de Chandigarh, por exemplo, foram utilizados como pontos para amarrar vacas.

No Capitol, sob o monumento da mão aberta, eu avistei alguns funcionários aproveitando o espaço livre para jogar uma partida de “Cricket”, durante o intervalo do almoço.
O modelo Progressista de Le Corbusier, terá ele ajudado os residentes de Chandigarh a viverem melhor? A escala certamente facilita a sua organização. Chandigarh é uma cidade 1 milhão de habitantes, pequena em comparação com Mumbai (12 milhões), Deli (11 milhões) ou Bangalore (8 milhões). Talvez o bom funcionamento se dê também graças à jovialidade da cidade, um otimismo impregnado desde a sua concepção.

Adendo 2026:
No dia 13 de Junho, eu assisti a uma palestra de Vikram Prakash na Independent School for the City, em Roterdão. Ele é professor de arquitetura na Universidade de Washington e filho de Aditya Prakash (1924-2008), arquiteto que trabalhou na equipe de Le Corbusier em Chandigarh. Ele assinou vários projetos de arquitetura na cidade, como a escola de arquitetura, o Cinema KC e o teatro Tagore. Segundo Vikram, o projeto de Chandigarh não trazia apenas a visão sobre uma nova Índia após a independência do Império Britânico, mas buscava a reformulação de uma identidade internacional que não se enquadava apenas nos binários leste-oeste, capitalismo-comunismo, local-regional. Este movimento foi auto-denominado “non-aligned modernism“.


