Chandigarh e Brasília | Um mesmo gesto em cantos opostos do mundo
19/11/2013

Visitei Chandigarh em 2012. Eu estava hospedada em Nova Delhi e fiz uma viagem bate-e-volta de trem. Foi corrido e não consegui ver tudo em apeans um dia. Ainda assim, foi o suficiente para conhecer e dar uma volta nesta cidade que se tornou um marco na história do urbanismo. Neste texto, trago algumas impressões dos lugares que pude visitar.

Monumento da “Mão aberta”, de Le Corbusier

Uma nova capital para o Punjab

Com a independência da Índia do Império Britânico, em 1947, e a partição e criação do Paquistão, a antiga capital da região do Punjab (Lahore) passou a pertencer ao Paquistão.  O Punjab precisava portanto de uma nova capital. Em um primeiro momento, pensou-se em adaptar a estrutura do governo a uma cidade existente mas, em virtude da nova demanda populacional, com mais de 4,5 milhões de imigrantes provindos do Paquistão, chegou-se ao acordo de construir uma nova cidade do zero – Chandigarh.

Após a definição de um sítio, a contratação de urbanistas para desenvolverem o plano diretor foi efetuada. Jawaharlal Nehru, o primeiro ministro da época, contratou os americanos Albert Mayer e Matthew Nowicki. Mayer serviu de tenente na India durante a 2ª guerra, ocasião em que conheceu Nehru, e demonstrou-lhe o seu interesse de trabalhar em algum projeto para o país. Eles iniciaram o projeto porém, em agosto de 1950, o seu sócio morreu em um acidente de avião. Mayer então declarou que não conseguiria continuar o projeto sozinho e abandonou-o pela metade.

Após este choque, houve um momento de indecisão. Quem deveria herdar esse projeto, se encarregar da construção e concepção da nova capital?  Após a discussão em torno de vários nomes, ficou decidico por Le Corbusier.

Le Corbusier Centre
Chandigarh Architecture Museum – Museu de Arquitetura de Chandigarh
Museu de Arquitetura de Chandigarh
Entrada de luz na circulação do museu
O modulor

O Plano de Corbusier e a semelhança com Brasília

Ao visitar Chandigarh, a comparação com Brasilia torna-se inevitável.  Chandigarh (1947) e Brasília (fundada em 1960) nasceram após o fim da segunda guerra mundial, com pouco mais de 10 anos de diferença entre elas. Em ambos os contextos, tratava-se de um momento de grande expectativa em relação ao futuro. Na Índia, com o fim de uma guerra religiosa e a separação do estado do Paquistão e, no Brasil, com a prosperidade e desenvolvimento econômico. O plano urbano de Brasília seguiu um modelo rodoviarista, priorizando o automóvel como principal meio de transporte.

Plano urbano de Chandigarh
Plano Piloto de Brasília, de Lucio Costa

Ambos os planos seguem os princípios da Carta de Atenas, de 1933, modelo de cidade progressista no qual as diferentes zonas são claramente delimitadas e separadas (habitar, trabalhar, lazer e circulação). Em Chandigarh, estas zonas são distribuídas por uma malha de setores, cada um medindo 1.200 x 800m. Em Brasília, temos as Superquadras residenciais, de 240 x 240m, que seguem o grande arco das asas do Plano Piloto.

High Court – Supremo Tribunal
High Court
Secretariat
Secretariat

De modo semelhante ao Plano Piloto de Lúcio Costa, no qual a praça dos três poderes – com o Palácio do Planalto (executivo), o Supremo Tribunal Federal (Judiciário) e o Congresso Nacional (legislativo) – ‘encabeça’ o conjunto, é no Capitol, no extremo norte de Chandigarh, que se situa o Secretariat, o High Court (Supremo Tribunal) e a Assembléia. Apesar de ocupar uma posição de evidência na malha, o Capitol se adequa à mesma, preservando a estrutura dos módulos.  O Capitol corresponde à dimensão de 2 módulos unificados. Por outro lado, em Brasília, a praça dos três poderes ocupa uma posição hierárquica no plano e se distingue pela sua forma.

Congresso Nacional em Brasília, projeto de Oscar Niemeyer

Em Chandigarh foi criado um lago artificial, bem como em Brasília. Esta é a principal área de lazer da cidade.

Enquanto em Brasilia, a cintura verde é ao longo da faixa residencial, em Chandigarh ela atravessa a cidade numa única faixa verde que corta a cidade no sentido norte sul. Um corredor verde com diversos jardins, entre eles o Rose Garden.

O setor comercial está concentrado no setor 17. Aqui há galerias organizadas em torno de uma grande praça, que propiciam o encontro e o passeio sob os pilotis. Este local me lembrou um pouco a tipologia do ‘Connaught Place’ em Nova Deli.

Setor 17, centro comercial

O Racionalismo encontra a Cultura Local

Sinalização de trânsito

Os espaços públicos de Chandigarh são organizados e bem cuidados. Avistei muitas latas de lixo na rua, bicicletários, sinalizações. Apesar de um racionalismo no projeto, o momento da ocupação pode levar a uso inusitados em função das necessidades e da cultura local.  Alguns pontos de ônibus de Chandigarh, por exemplo, foram utilizados como pontos para amarrar vacas.

No Capitol, sob o monumento da mão aberta, eu avistei alguns funcionários aproveitando o espaço livre para jogar uma partida de “Cricket”, durante o intervalo do almoço.

O modelo Progressista de Le Corbusier, terá ele ajudado os residentes de Chandigarh a viverem melhor? A escala certamente facilita a sua organização. Chandigarh é uma cidade 1 milhão de habitantes, pequena em comparação com Mumbai (12 milhões), Deli (11 milhões) ou Bangalore (8 milhões). Talvez o bom funcionamento se dê também graças à jovialidade da cidade, um otimismo impregnado desde a sua concepção.

Adendo 2026:

No dia 13 de Junho, eu assisti a uma palestra de Vikram Prakash na Independent School for the City, em Roterdão. Ele é professor de arquitetura na Universidade de Washington e filho de Aditya Prakash (1924-2008), arquiteto que trabalhou na equipe de Le Corbusier em Chandigarh. Ele assinou vários projetos de arquitetura na cidade, como a escola de arquitetura, o Cinema KC e o teatro Tagore. Segundo Vikram, o projeto de Chandigarh não trazia apenas a visão sobre uma nova Índia após a independência do Império Britânico, mas buscava a reformulação de uma identidade internacional que não se enquadava apenas nos binários leste-oeste, capitalismo-comunismo, local-regional. Este movimento foi auto-denominado “non-aligned modernism“.