Naoshima e Teshima | Japão
17/03/2026

Nas últimas décadas, Naoshima, Teshima e Inujima se tornaram importantes centros de arte, reconhecidos internacionalmente. Amantes das artes do mundo inteiro vêm visitar as ilhas japonesas, que reúnem obras de artistas como James Turrel e Yayoi Kusama, além de projetos de arquitetura de Tadao Ando e Ryue Nishizawa, do SANAA.

Abóbora amarela de Yayoi Kusama

A mais conhecida entre as ilhas é Naoshima. Embora Naoshima concentre a maior parte dos museus, a principal indústria local é uma fábrica da Mitsubishi. Uma grande parcela dos cerca de 3 mil moradores trabalha para a empresa, cuja atividade primordial aqui é o refinamento de cobre.

É possível se hospedar em Naoshima ou ir para lá de barco, apenas para passar o dia. Esse foi o nosso caso. Nós até procuramos uma hospedagem na ilha, mas os quartos se esgotam com muitos meses de antecedência. No final, nos hospedamos na cidade de UNO.

A ideia de transformar Naoshima em um centro de arte surgiu nos anos 1980. O Benesse House Museum, inaugurado em 1992, foi o primeiro museu do conjunto. A arquitetura é de Tadao Ando.

Benesse House Museum, Tadao Ando

Benesse House Museum, Tadao Ando

Este museu está localizado em uma ponta no sul da ilha, rodeado pelo mar em três lados. Dado o contexto, o arquiteto buscou fazer um prédio semienterrado, integrado ao declive e à natureza. Um objeto quase invisível na paisagem. Sua intenção era diluir o limite entre interior e exterior.

Espaços de exposição se integram com a natureza e o entorno
Fotografias de Hiroshi Sugimoto expostas na área externa. O projeto busca integrar arte e natureza.
Fotografias de Hiroshi Sugimoto expostas na área externa. O projeto busca integrar arte e natureza.

Os espaços expositivos estão organizados em torno de um espaço central, de planta redonda e um pé direito que atravessa o prédio. O projeto articula formas puras e linhas retas. As paredes são em concreto aparente, característica da arquitetura de Ando. A coleção inclui obras de artistas como Richard Long, Jonh Chamberlain e Frank Stella.

Linhas retas. Rampa permite a transição entre pavimentos dentro da galeria de exposição.
Obra de Richard Long dentro da galeria
Obra de Richard Long em um espaço externo, integrando a exposição com a natureza ao redor.

“Art House Project”

Em 1998, teve início o “Art house Project”, no qual artistas ocupam e transformam o interior de casas tradicionais que se encontram em estado de deterioração e abandono. O objetivo deste projeto era atrair visitantes e levantar dinheiro para o restauro destas casas. A primeira destas ocupações foi o “Kadoya art house Project” do artista Miyajima Tatsuo. Por se tratar da primeira intervenção deste tipo, ele enfrentou uma certa resistência da população. Para contornar isso, o artista convidou as pessoas a participarem do processo criativo. Hoje, além deste, há  seis outros “Art House Projects” espalhados pela ilha.

Chichu Museum, Tadao Ando

Em 2004, foi inaugurado o Chichu museum. Localizado em um morro a 600 metros a oeste do Benesse House Museum, o Chichu Museum seguiu o mesmo pricípio de integrar arte com a natureza. O arquiteto optou por enterrar praticamente o museu inteiro. O programa foi pensado para abrigar obras permanentes de 3 artistas: Claude Monet, Walter de Maria e James Turrel. De acordo com o nosso guia, o colecionador era apaixonado pelas pinturas das ninfeias de Monet e, quando teve a oportunidade de comprá-las, resolveu construir um museu inteiro para abrigá-las e apresentá-las ao público.

Espaços de transição no Museu Chichu

O museu por si só é uma obra de arte. O percurso entre uma sala e outra nos leva de volta ao ambiente externo, onde podemos observar o céu e a natureza junto às formas geométricas e o concreto bruto da arquitetura de Ando.

Espaços externos de transição no Museu Chichu
Detalhe do corrimão

Valley gallery, Tadao Ando

Mais um projeto de Tadao Ando. Este pequeno pavilhão  acolhe a obra “O Jardim de Narciso”, de Yayoi Kusama.

“O Jardim de Narciso”, de Yayoi Kusama

Lee ufan museum, Tadao Ando

Lee ufan é um artista sul-coreano que hoje vive entre a França e o Japão. Ele é amigo de Tadao Ando, então eles conceberam a galeria juntos, um projeto à quatro mãos. Os espaços foram pensados especificamente para as obras expostas. Esse projeto foi inaugurado em 2010.

Museu Lee Ufan
Acesso ao museu Lee Ufan
Escultura de Lee Ufan “Porte vers l’infini “, inaugurado em 2019.

Ando Museum, Tadao Ando

Visto que Tadao Ando assinou muitos dos projetos na ilha, em 2013 foi inaugurado o Ando Museum, um centro que reúne desenhos e maquetes de alguns de seus projetos. Para além de projetos icônicos como a “church of light” (tradução: igreja da luz), a exposição inclui croquis e informações sobre a arquitetura dos demais museus na ilha. Considero este um bom ponto para iniciar a visita de Naoshima.

Ando Museum

Naoshima New Museum of Art

Este é o museu mais novo do complexo, inaugurado em maio de 2025. Além de um restaurante com vista panorâmica, o museu inclui um acervo permanente apenas com obras de artistas asiáticos.

Acesso ao Naoshima New Museum of Art
Vista panorâmica do restaurante

 

Obra do artista sul-coreano Do Ho Suh

Teshima

Teshima é uma ilha maior do que Naoshima em termos de território, mas tem menos moradores e museus. Fomos informados pelo nosso guia de que a Mitsubishi cogitou se instalar aqui, mas que os moradores foram resistentes, então ela acabou por ir para Naoshima. Com isso, Teshima tem um estilo de vida mais calmo e com mais natureza. A paisagem é caracterizada pela presença de campos de arroz. A principal intervenção artística é o Teshima Art Museum.

O Teshima Art Museum foi uma cooperação entre o arquiteto Ryue Nishizawa e a artista Rei Neito. O local foi inaugurado em 2010, na ocasião do Setouchi International Art Festival. É proibido tirar fotos dentro então eu não tenho muitos registros. Trata-se de um espaço de contemplação da arte, da arquitetura e da natureza.

É interessante observar como as pessoas se comportam no local. Visto que o uso do smartphone é restringido, as pessoas realmente tiram um tempo para se conectar com o lugar. Há aqueles que andam em volta, aqueles que sentam, outros que deitam (e até mesmo tiram uma soneca). Alguns escolhem um lugar para ficar meditando, outros trocam para apreciar novos ângulos. Você pode ficar quanto tempo quiser, então há aqueles que ficam poucos minutos e outros que permanecem por horas.

Fonte Foto: https://benesse-artsite.jp/en/art/teshima-artmuseum.html

A forma orgânica é resultante de um processo de construção que envolveu a criação de um morro de terra que foi então inteiramente escavado após o processo de concretagem. Deixo um vídeo à seguir que demonstra o impressionante processo:

O artista francês Christian Boltanski fez também duas intervenções na ilha de Teshima. A primeira delas é a “forêt de murmurs” (tradução: floresta de sussurros). Essa obra foi resultante de um worskhop interativo com os moradores, realizado durante a Trienal de Setouchi em 2016, e acabou por se tornar uma obra permanente. Na floresta, foram pendurados sinos com acetato, onde os visitantes escrevem os nomes de pessoas amadas.

A segunda obra de Boltanski é “Les Archives du Cœur” (tradução: Arquivo do Coração). Trata-se de um pequeno centro onde as pessoas podem ir e gravar as batidas do seu coração. As gravações ficam salvas em um catálogo que pode ser consultado pelos visitantes. Há também uma sala onde podemos ouvir as batidas do coração de diversas pessoas que já deixaram seus registros no passado. As obras do artista lidam com temas como a memória e a resistência ao esquecimento.

“Les archives du coeur”, de Christian Boltanski

O “Arquivo do Coração” foi construído em uma região muito bonita da ilha, perto da praia. O local foi escolhido pelo artista, pensando nele como um destino para peregrinação. Pessoas do mundo inteiro podem vir até aqui para ouvir a batida do coração de um ente querido e contemplar a bela paisagem.

Entorno da obra “Les Archives du Coeur”

Eu visitei as ilhas pouco antes do início da Setouchi Triennale de 2025. Ainda assim, pude conferir uma das obras que já tinha sido instalada. O nome dela era ‘Beyond the Border – Prayer’, do artista taiwanês Lin Shuen Long. A obra trazia esculturas de 197 crianças, cada uma delas com a latitude da capital do um país impressa nas costas. Elas estavam voltadas em direção ao seu respectivo país, numa pose de prece. Um gesto que representa a próxima geração que reza pelo futuro dos seus países e do planeta.

Tivemos apenas dois dias na região, então não tivemos tempo de conhecer a ilha de Inujima, onde há uma obra de Beatriz Milhazes. Deixo uma foto da intervenção da artista brasileira abaixo.

Obra de Beatriz Milhazes em Inujima. Fonte Foto: https://benesse-artsite.jp/en/art/inujima-arthouse.html