Publicado em 2011, o livro “Project Japan. Metabolism talks…”, escrito por Rem Koolhaas e Hans Ulrich Obrist, traça um panorama do Metabolismo Japonês, uma vertente do modernismo que surgiu no Japão após a segunda guerra mundial. Além de apresentar o contexto histórico, o livro reúne uma série de entrevistas realizadas entre 2005 e 2011 com nomes importantes do movimento, como os arquitetos Arata Isozaki, Fumihiko Maki e o crítico Noboru Kawazoe. De acordo com os autores, o Metabolismo japonês foi o último movimento de vanguarda e o último momento em que a arquitetura era um assunto público mais do que privado.

O Metabolismo Japonês foi muito influenciado pelas ideias de Le Corbusier sobre a tabula rasa e a ville radieuse. Apresentada pela primeira vez em 1924 e publicada em 1933, a ville radieuse era uma proposta para a construção de uma cidade inteiramente do zero. Parece muito radical, mas essa era a realidade na época de muitas cidades europeias que foram arrasadas pelos bombardeios da primeira guerra mundial.

Em 1932, o Japão ocupou a Manchúria, uma região no nordeste da China, com um projeto expansionista e colonizador. Diferente da ilha japonesa, cuja geografia acidentada e montanhosa consistia em apenas 330,000 km², a Manchúria era um plano extenso com mais de 1,3 milhão km². O local perfeito para experimentações seguindo os conceitos da tabula rasa.
Apenas 10 anos depois, com o bombardeio das cidades de Hiroshima e Nagasaki em 1945, a tabula rasa veio para o Japão. A construção do zero deixou de ser um conceito para a expansão externa, mas uma solução para a reconstrução interna. Além Hiroshima e Nagasaki, centenas de outras cidades japonesas também foram amplamente destruídas, como Tóquio, que teve 51% do seu território bombardeado, Osaka (35,1%), Nara (69,3%) e Kobe (55,7%).
Neste contexto, o arquiteto Kenzo Tange, que dava aulas na universidade de Tóquio, criou o Tange Lab, um laboratório de pesquisa ou ‘think-tank’ de arquitetura que pensava novas soluções para a reconstrução das cidades japonesas. As abordagens eram fortemente inspiradas pelo modernismo, com um olhar para o futuro mas sem perder a referência da tradição japonesa.
Projeção internacional do Metabolismo Japonês
Kenzo Tange passou um tempo nos EUA. Ele participou da feira de design de Aspen e quis trazer o evento para o Japão. Isso acabou resultando no World Design Conference (WODECO) de 1960, evento que aconteceu em Tóquio e atraiu arquitetos do mundo todo, como Louis Kahn, François Choay, Bruno Minari, Peter e Alison Smithson, Jean Prouvé, além do próprio Kenzo Tange e os arquitetos do Tange Lab. Nesse mesmo ano, o livro manifesto dos Metabolistas foi publicado.

Além de Kenzo Tange, arquitetos como Fumihiko Maki e Kisho Kurokawa passaram tempo nos EUA e na Europa e frequentaram os encontros internacionais do UIA e o Team 10, o que deu mais visibilidade internacional ao movimento.
Este foi um período particularmente fértil em termos de projetos no Japão. No período entre 1945 e 1960, a população de Tóquio passou de 3,5 milhões para 9,5 milhões. Projetos para atender a crise habitacional decorrente do aumento da população passaram por soluções de aterramento da baía de Tóquio (imagem abaixo) . Tiveram ainda grandes eventos como a olimpíada de 1964 (a edição de 1940 que deveria acontecer no Japão foi cancelada devido à segunda guerra mundial) e a Expo de Osaka em 1970. Ambos estes megaeventos representaram oportunidades de renovar e ressignificar a identidade japonesa numa escala internacional pós-segunda guerra mundial.

Sobre a preservação do patrimônio no Japão
O templo de Ise é frequentemente citado como um exemplo de conservação da tradição e técnica de construção japonesa. Em um ritual chamado “shikinen sengu”, o templo é desconstruído e reconstruído a cada 20 anos. O conceito é que a tradição não é preservada pelo objeto ou a matéria em si, mas pela transmissão do saber e da técnica de construir de geração em geração. Esse processo influenciou fortemente os princípios do Metabolismo japonês. Ao invés de ser um estilo de uma época, o Metabolismo Japonês buscou a transformação contínua. Seus projetos são caracterizados por capsulas e unidades modulares que se movimentam dentro de um sistema.

Um projeto que exemplifica isso é a torre Nakagin, de Kisho Kurokawa. Inaugurada em 1972, a torre era composta por capsulas que se acoplavam a uma estrutura central. O prédio, portanto, podia mudar com o tempo e de acordo com as necessidades. Infelizmente, devido à falta de manutenção, o prédio foi se deteriorando e, em 2007, os moradores votaram pela sua demolição, que ocorreu em 2022. Até julho 2026, o MOMA em Nova Iorque estará com uma exposição sobre a torre intitulada ‘The many lives of the nakagin capsule tower”
Outro projeto emblemático é a casa “Sky House“, de Kiyonori Kikutake, uma residência que o arquiteto projetou para si mesmo. O bloco principal era elevado sobre o terreno, sustentado por uma robusta estrutura de concreto. O espaço vazio sob o bloco permitia a eventual expansão da casa conforme necessidade futura, acoplando novos compartimentos ao conjunto.
Expo 1970 e 2025 em Osaka
A Expo 70 foi mais uma oportunidade de tabula rasa que se apresentou, um terreno fértil para a experimentação dos Metabolistas. O conceito inicial de uso foi feito por Uso Nishiyama e Kenzo Tange dirigiu o master plan, convocando um time de 13 arquitetos para trabalhar com ele. Dentre eles estavam incluído nomes como Kiyonori Kikutake e Arata Isozaki.

Nesse ano de 2025, Osaka voltou a ser sede da Expo. Esta edição contou com uma mega estrutura de madeira projetada por SOU Fujimoto, um anel que roedeava a área da expo, estabelecendo o seu limite e ao mesmo tempo servindo de espaço de circulação protegido das intempéries. Enquanto a expo acontecia em Osaka, o Mori Museum em Tóquio organizou uma super exposição retrospectiva de SOU Fujimoto. Abaixo, algumas fotos da maquete da estrutura da Expo 2025.


