Made in Tokyo | Momoyo Kaijima, Junzo Kuroda e Yoshiharu Tsukamoto
30/12/2025

Publicado originalmente em 2001, o livro “Made in Tokyo” é uma pesquisa dos arquitetos Momoyo Kaijima e Yoshiharu Tsukamoto, fundadores do escritório Atelier Bow-Wow, junto com Junzo Kuroda. O livro é uma espécie de guia de arquitetura que reúne 70 edifícios peculiares da capital japonesa. Diferente dos guias tradicionais, que apresentam monumentos, prédios de valor histórico e obras de arquitetos de renome, este guia foca sobre as tipologias atípicas resultantes das complexidades de Tóquio.

Capa do livro “Made in Tokyo”

No início do livro, eles explicam a metodologia adotada. Eles consideraram três critérios para a escolha dos prédios para a análise: uso, estrutura e categoria. Os projetos são representados através de desenho 3d, uma planta de situação, fotografias e um pequeno texto.

Eles se propuseram a analisar exemplares da “Da-me architecture” (que pode ser traduzido como “arquitetura ruim”). São prédios que combinam usos inusitados, que funcionam de maneira independente, mas que compartilham uma mesma estrutura. Um exemplo é o Bus housing(13), um prédio de habitação social com uma garagem de ônibus no térreo. Os intervalos na estrutura correspondem a 2 módulos de apartamentos e 2 módulos de ônibus, ou seja, a dimensão de cada ônibus equivale a de um apartamento.

Bus housing(13)

Outro exemplo é o Super car school (29), um supermercado com uma autoescola na cobertura e uma pista para a realização das aulas.

Super car school(29)

Tóquio é uma cidade onde o valor do metro quadrado é altíssimo. Por isso, as unidades residenciais são muito pequenas e qualquer espacinho que sobra deve ser aproveitado. Os autores argumentam que essa escassez gera em uma fobia de vazios (“void phobia”), que resulta em uma arquitetura de pequena escala, que eles chamam de “pet-size”. Essa vontade de preencher cada lacuna explica em parte o sucesso das máquinas de venda automáticas, espalhadas em tantos cantos da cidade (e do país).

 

Segundo os autores, a proliferação da arquitetura ‘pet-size’ contribui para transformar o ambiente urbano em um “super-interior”. Acho que essa visão faz bastante sentido pois, embora Tóquio seja uma metrópole com mais de 14 milhões de pessoas, as ruas têm uma escala bem pequena, próxima da escala do indivíduo. Muitas ruas são estreitas, de mão única e com calçadas no mesmo nível diferenciadas apenas pela pintura no asfalto. Dependendo do bairro onde caminha, você se sente numa cidade pequena.

 

Por outro lado, a paisagem de Tóquio também é caracterizada pelos seus imensos viadutos. Em 1964, a capital japonesa sediou os Jogos olímpicos. Para a ocasião, muitas rodovias elevadas foram construídas. A rapidez destas obras se deveu em parte ao prazo olímpico, mas também ao alto preço do metro quadrado.

Construir no céu libera espaço no solo. Essas infraestruturas acabaram gerando vários nichos que foram posteriormente aproveitados pela “da-me architecture”. Alguns exemplos citados no livro são o Electric passage (2), lojas sob uma linha de trem e o Highway department store (3), uma loja de departamento sob uma avenida expressa.

Electric passage (2)
Highway department store (3)

O que muitos desses prédios tem em comum é a proximidade a importantes eixos de circulação, seja o metrô, trem, monotrilho ou uma avenida expressa de automóveis. Pensei inicialmente que a proximidade das vias de circulação teria facilitado a sua identificação por parte dos pesquisadores. Contudo, a adjacência da infraestrutura de transporte pode ser um fator gerador dessa sobreposição de funções, já que aqui o metro quadrado costuma ser ainda mais caro.

Alguns exemplos do livro estão ligados diretamente à essa infraestrutura, como o Express patrol Building (10), que combina estacionamento de viaturas policiais, o escritório e moradia para funcionários. Esse prédio inclui uma rampa interna então os carros podem acessar diretamente a via expressa elevada ou então descer pela rampa do prédio e acessar a via abaixo.

Esse não é o único exemplo de prédio de indústria ou escritório que também inclui moradia. Como o valor da moradia é muito alto, muitas pessoas moram fora da cidade e vem diariamente trabalhar de trem. Uma alternativa ao deslocamento são as moradias no próprio trabalho. Alguns exemplos disso no livro são a Nama-com apartment house(15), uma usina de concreto com moradia, o Horse-apartment house (17), um coletivo de prédios onde os estábulos dos cavalos ficam no térreo e os cuidadores moram nas unidades acima, e o Distribution complex (18), um centro de distribuição com moradia.

Nama-com apartment house(15)
Horse-apartment house (17)
Distribution complex (18)

No fim do livro, há um mapa com a localização dos 70 prédios em Tóquio. A cidade é dinâmica, então muitos desses já foram demolidos desde a publicação do livro. Acho que mais do que os prédios em si, a metodologia empregada e a análise do conjunto nos ajudam a entender as dinâmicas do ambiente urbano de Tóquio, a arquitetura e a sobreposição de funções decorrente. Esta leitura nos ajuda a refletir e considerar articulações entre usos improváveis que podem contribuir entre si.