A mais recente edição do Congresso mundial de arquitetura da União Internacional de Arquitetos (UIA) foi realizada entre 28 de Junho e 2 de Julho 2026, na cidade de Barcelona. O evento reuniu arquitetos de vários países em um encontro em torno do tema “Arquiteturas para um planeta em transição” (“Becoming. Architectures for a planet in transition”). Os eventos do congresso foram divididos por três sítios : 3 xemeneies, o Centro de Convenções Internacional de Barcelona(CCIB) e o museu de design Disseny Hub.
Les 3 xemeneies
Les 3 Xemeneies é uma antiga usina termoelétrica, construída nos anos 70 e desativada em 2011. Ela se tornou um símbolo da degradação ambiental na região e houve uma proposta pela sua demolição. Apesar disso, em uma consulta pública realizada em 2008, os moradores do bairro eles votaram pela sua preservação. Segundo eles, as três torres tornaram-se parte da identidade do bairro. Em 2022, foi anunciado um projeto para transformar o local em um novo centro de mídia.

Durante o congresso UIA, o local reuniu exposição, performances, palestras e uma festa na noite de encerramento. A exposição incluía o resultado de workshops e projetos de pesquisa. Muitos deles lidavam com assuntos como a crise habitacional, o direito à cidade e soluções de resiliência urbana, desde estudos sobre o uso da cidade 24 horas até soluções naturais para compensar o aumento do nível do mar.
Centro de Convenções International de Barcelona (CCIB)
O CCIB fica na região do fórum, em frente a um edifício projetado para o Forum Universal de Culturas de 2004 por Herzog et De Meuron, e que hoje abriga o Museu de Ciências Naturais. Durante três dias intensos, o CCIB reuniu dezenas de palestras simultâneas.

Segunda, dia 29/6
O primeiro dia iniciou com uma mesa redonda com Dirk Sijmons + KK + N + S, Eva Franch + Takk, Design Earth, Simulaa, mediado por Mark Wigley e Bas smets. Dada a disposição do espaço, com o palco no centro e o público ao redor, eles criaram uma metáfora um ringue de boxe. Ao final de cada discussão, os mediadores davam uma volta carregando um número, como uma contagem regressiva para o início do congresso. As discussões abordaram a importância de os arquitetos considerarem tanto os seres-humanos quanto os não-humanos em seus projetos. Os projetos devem seguir um princípio ecológico e como devemos olhar para e nos inspirar na natureza ao buscar soluções. Temos muito a aprender com líquens e bactérias. Não devemos pensar em termos de reconstrução, mas em termos de reparo, para não reproduzir os mesmos erros e o mesmo modo de construir.
Em seguida, assisti à mesa “Ecologies in Process. Between Land and Water”, que seguia nessa mesma linha de discussão. Dirk Sijmons falou sobre o aumento do nível do mar e como a Holanda, um país cheio de diques e canais, pode se adaptar a essa elevação. A solução pode se apoiar sobre um processo natural de sedimentação, através da criação de aberturas estratégias nos diques e na inundação parcial de áreas na costa. A ele, se juntou Kate Orff, do Scapestudio, que já fez muitos projetos de regeneração da biodiversidade com espécies naturais, entre os projetos o “oyster-tecture” em Nova Iorque.
Terça, dia 30 /06
No segundo dia, o tema principal foi a arquitetura de urgência. Ainda em resposta às questões climáticas, Marina Tabassaum falou sobre seus projeto de casas itinerantes, uma solução para as temporadas de grandes tempestades no Bangladesh. A casa de dois andares permite que a família suba para o piso superior quando há alagamentos. Em seguida, o arquiteto japonês Shigeru Ban falou sobre seus projetos para abrigar refugiados de desastres climáticos, o reuso de materiais e sobre a sua pesquisa com bobinas de papelão.


Quarta, dia 01/07
No último dia de palestras, sobressairam para mim as discussões em torno de ideais e políticas. Projetos não precisam ser construídos para terem um impacto e gerarem uma discussão ou mudança de paradigma. Assisti à uma mesa redonda com Paulo Tavares e Marina Otero, e depois a uma conversa com o arquiteto vencedor do Pritzker Smiljan Radic.
Disseny HUB
A poucos quilômetros do CCIB, havia ainda uma parte expositiva do congresso no museu de Design – o Disseny Hub. Institutos de diferentes países montaram estandes, apresentado exemplos da prática da arquitetura e construção em suas respectivas nações. O projeto do IAB-RJ foi assinado pelo escritório Estúdio Chão. A cidade do Rio de Janeiro era candidata a sediar o Fórum UIA, em 2028. Com isso, o estande trazia um mural com cartões postais e uma televisão transmitindo belas imagens da cidade maravilhosa. Além disso, o artista Marcos Chaves contribuiu com uma instalação sonora de três locais únicos da cidade : a praia de Ipanema, a floresta da Tijuca e a Pedra do Sal. No domingo, dia 5 de Julho, foi confirmado que o Rio será mesmo a sede do Fórum em 2028.


A Barcelona de Enric Miralles
Para além das palestras, exposições e eventos, o congresso UIA organizou tours pela cidade. Visto que a minha pesquisa de doutorado é sobre legados olímpicos, eu optei por visitar alguns dos bairros olímpicos de Barcelona, como o El Clot e Poblenou. Em El Clot, há um centro de treinamento de tiro ao arco, um projeto de Miralles + Pinós, que permanece em uso até os dias atuais.




Em um segundo tour, passamos de bicicleta por diversos espaços públicos. Entre eles, o Parc Diagonal del Mar, de Enric Miralles e Benedetta Tagliabue e a pérgola da avenida Icaria, de Enric Miralles e Carme Pinós, que já foi assunto aqui.

A Barcelona de Antoní Gaudí
No ano do congresso UIA, a cidade sede é nomeada capital mundial da arquitetura. Por isso, ao longo de 2026, vários eventos de arquitetura foram realizados na capital catalã. Entre eles, as celebrações pelo centenário da morte do arquiteto Antoni Gaudí. A homenagem contou com a inauguração da torre mais alta da Basílica Sagrada Família com uma missa rezada pelo papa Leão XIV.



Aproveitei a estadia para conhecer a casa Vicens, a primeira casa projetada e construída por Gaudí, entre 1883 e 1885. Lá viveram o banqueiro Manel Vicens e sua esposa. Em 2005, a casa foi reconhecida como patrimônio mundial pela Unesco e teve o seu restauro finalizado em 2017.

A edição anterior do congresso tinha sido em Copenhagen, em 2023. Tive a chance de visitar e escrevi sobre aqui. A próxima edição, que será em 2029, será em Beijing.
Fontes:
Catalana News, acesso 6 de Julho, 2026.
“Neighbors Save Les Tres Xemeneies”, acesso 6 de Julho, 2026.

