Pavilhões do UIA 2023 | Copenhague
01/08/2023

Além das palestras e debates no Bella Center, o congresso UIA 2023 em Copenhagen organizou diversos eventos pela cidade relacionados à arquitetura. Um deles foi a ‘architecture run’, realizada no domingo dia 2 de Julho. Com organização do Danish Architecture Center (DAC), a corrida de 5 e 10 quilômetros saía da frente do prédio BLOX, um projeto do OMA. Eu participei e, o que eu achei mais interessante, foi o fato do percurso passar por dentro de vários prédios públicos, como museus e o prédio da prefeitura, por exemplo.

 

Além disso, foram construídos pavilhões que traziam exposições paralelas. Os SDG pavilions eram inspirados nas 17 metas de sustentabilidade estabelecidas pela ONU. Todos os pavilhões serão desmontados e reaproveitados ou então reutilizados após o evento. Todos foram concebidos por equipes interdisciplinares de arquitetos, engenheiros, institutos de pesquisa, produtores de materiais, institutos, entre outros. A seguir, um resumo de alguns pavilhões que eu tive a oportunidade de visitar.

The Tower of Wind

Arquitetura: Anna Maria Idrio (Atenastudio), Henning Frederiksen Christian Fogh e Simone Aaberg Kærn (artista)

O projeto faz referência ao “Horologium”, uma torre construída em Atenas entre os anos 100 – 50AC. A construção grega de planta octogonal incluía no interior um relógio d’água, que ajudava a população a mensurar o tempo e as condições climáticas. O piso e as paredes do pavilhão são em CLT (Cross laminated timber), um material resistente e com baixa pegada de carbono. A cobertura tem um furo e, imediatamente embaixo, a artista Simone Aaberg Kærn instalou uma esféra cuja superfície se transforma quando entra em contato com a água da chuva. Trata-se de um edifício em sintonia com as mudanças do meio ambiente. A base ao redor da torre ajuda a ancorá-la no solo e a contrapor os esforços do vento. Após o fim do congresso, o prédio será dividido ao meio e convertido em uma unidade residencial.

 

SDG Pavilion – The Tower of wind

Bricks in common

Arquitetos: AART, Mangor & Nagel

Este pavilhão era composto pela interseção de três arcos com raios diferentes, cada um construído a partir de um tipo de tijolo distinto. O menor arco foi construindo utilizando tijolo maciço, cuja produção é altamente poluente; no arco intermediário, foi utilizado um tijolo ecológico, que gera um impacto menor sobre o meio ambiente; o terceiro e maior arco de todos foi construído um tijolo que emite 75% menos gás carbônico na sua produção. Ao colocar os diferentes tijolos lado a lado, o pavilhão apresenta a evolução desse material e permite ao visitante perceber as diferenças de textura e cor entre eles.

 

SDG Pavilion – Bricks in Common

Reflections in common

Parceiros: Municipality of Copenhagen, Urgent Agency, Standard Practice, Grønne Hjem

Localizado na movimentada praça Kongens Nytorv, esse pavilhão convida o visitante à introspecção. Sua fachada é totalmente revestida por espelhos, o que num primeiro momento ocasiona uma experiência narcísica, na qual as pessoas observam a si mesmas com a paisagem de Copenhagen ao fundo. Em seu livro ‘Dentro do Nevoeiro’ (que já foi assunto nesse artigo aqui), Guilherme Wisnik falou sobre as superfícies espelhadas e nebulosas na arquitetura contemporânea.

SDG Pavilion – Reflections in Common

 

Em um segundo instante, no espaço interior, descobrimos um jardim cujo fundo também é espelhado. Aqui, o espelho amplia infinitamente o jardim, como se adentrássemos em um refúgio natural bem no meio do centro urbano. O pavilhão convida para um movimento de contemplação interior e de conexão com a natureza.

Plastic Pavilion

Arquitetos: Terroir

Este pavilhão foi inteiramente construído a partir de derivados de plástico (fiberglass, pvc). Seu projeto permite a desmontagem e sua remontagem com disposições variadas. A exposição traz uma série de produtos feitos a partir de plástico reciclável e pensa possíveis novas aplicações. A pergunta é qual (ou se) ainda há lugar para o plástico na construção civil e se o plástico poderia vir a ser compatível com a transição energética e ecológica.

SDG Pavilion – Plastic Pavilion
Amostras de materiais de plástico reciclado em exposição
SDG Pavilion – Plastic Pavilion

Bio-Center

Arquitetos: Architects Without Borders (Denmark)

Este é uma amostra do trabalho que está sendo desenvolvido pelo coletivo ‘arquitetos sem fronteiras’, em Uganda. Esses pequenos módulos são instalados em comunidades que muitas vezes carecem de infraestrutura de esgoto em suas casas. Eles atendem pessoas em um raio de 500m. Além de fornecer saneamento básico, o módulo proporciona outras funções como quiosque e centro de informações e de aprendizado. A ideia foi demonstrar como, mesmo com um pequeno projeto, somos capazes de gerar um grande impacto. Após o congresso, está prevista a doação do pavilhão para o Mellemfolkeligt Samvirke /ActionAid.

SDG Pavilion – Bio-center
SDG Pavilion – Bio-center

The Raft

Arquitetos: Studio Coquille, Tan & Blixenkrone

A tradução de the Raft para o português seria ‘a balsa’ ou ‘a jangada’. No caso, trata-se de uma plataforma flutuante que convida os visitantes a uma experiência sensorial sobre as águas. A base foi feita em CLT. A cobertura é de um tecido sustentável e resistente às intempéries, que poderá ser reutilizado posteriormente. O pavilhão criou rampas até o cais para garantir a acessibilidade universal.

SDG Pavilion – The Raft
SDG Pavilion – The Raft

4 to 1 Planet

Arquitetos: ReVærk, Tegnestuen LOKAL, Leth & Gori, Rønnow Architects, BOGL

Este pavilhão 3 em 1 traz três unidades residenciais, cada uma feita a partir de um material específico. O nome do pavilhão faz referência ao objetivo de tentar reduzir o impacto ambiental da industrial da construção civil para 25% do consumo de energia atual.

SDG Pavilion – 4 to 1 Planet

O primeiro deles é do ReVærk e é um módulo composto por madeira e terra batida. A sua forma e método construtivo permitem a redução da emissão de carbono, a eficiência térmica e reprodutibilidade em larga escala. A ideia é tornar a habitação sustentável mais acessível a todos.

Pavilhão de ReVærk

O segundo, assinado por Rønnow Architects, Leth & Gori, faz uma releitura da arquitetura vernacular. Estudos apontam que o uso de materiais naturais na arquitetura contribui para o bem-estar do usuário. A madeira é um material presente desde na arquitetura desde os primórdios. A madeira porém, se tornou um material caro e escasso. Este projeto, portanto, combina a madeira à palha e tijolo, criando um pavilhão menos poluente porém igualmente eficiente, estável e seguro em termos das normas de incêndio.

   

Thatched brick pavilion

Por fim, o pavilhão do Tegnestuen LOKAL + Aaen Engineering foi feito com um material com uma baixa pegada de carbono – a madeira laminada cortada (Glulam) – e também possui uma forma que otimiza a função em relação ao metro quadrado construído. No interior do pavilhão, há uma exposição que traz questionamentos sobre o nosso estilo de vida. Faz sentido ainda os filhos saírem da casa dos pais depois que crescem, por exemplo? Isso resulta em grandes apartamentos ociosos e uma alta demanda de novas habitações. Como podemos adaptar nossos estilos de vida para viver melhor, de forma mais eficiente e de uma maneira mais sustentável?

Pavilhão do Tegnestuen LOKAL + Aaen Engineering

unPavilion

Organizado pelo Prêmio Obel, esse pavilhão toma forma de uma máquina de lavar roupa verde sobre uma plataforma flutuante, uma referência direta ao termo greenwashing. A ideia é mostrar o quão danoso é continuar com o mesmo modo operacional de sempre, tipo ‘business as usual’, enquanto o nível do mar está subindo. Greenwashing é quando uma empresa, ONG ou instituição se divulga como ‘ambientalmente correta’, mas as suas práticas ambientais são insuficientes para compensar os danos produzidos por suas atividades. Para atingir a transição ecológica e o desenvolvimento sustentável, é necessário interromper as ações superficiais e focar em abordagens colaborativas e verdadeiramente eficientes.

unPavilion