Narbo Via, Foster and Partners | Narbonne
18/02/2024

Foster and Partners, um dos maiores e mais famosos escritórios de arquitetura do mundo, é bem conhecido por seus projetos high tech, como o “gherkin” ou a prefeitura de Londres. Em contraste, o seu projeto para o museu de arqueologia na cidade de Narbonne – o Narbo Via – surpreende por sua escala reduzida, suas formas horizontais e fachadas opacas.

Museu Narbo Via visto da avenida principal

Esse não é o primeiro projeto de Norman Foster na região da Occitanie, no sul da França. Ele também assinou o museu Carré d’art, em Nîmes (inaugurado em 1993), e o Viaduto de Milliau (inaugurado em 2004). No projeto para o Narbo Via, Foster and Partners cooperou com o arquiteto Jean Capia, que geriu as operações junto à l’Agence Régionale Aménagement Construction d’Occitanie (ARAC), e com o studio Adrien Gardère, que desenvolveu a museografia. Selecionado a partir de um concurso em 2011, o Narbo Via foi inaugurado em 2020, embora a criação de um museu de arqueologia fosse um projeto da cidade desde os anos 1970.

Lateral do museu

A história de Narbonne

Narbonne foi uma importante urbe durante o império romano, chamada na época de ‘Narbo Martius’. Passava por aqui a Via Domitia, uma estrada construída a partir de 118 A.C. que interligava a Itália até a Península Ibérica. Muitos monumentos dessa época, como termas, anfiteatros e templos, foram destruídos no fim da antiguidade e durante a idade média. Pedaços remanescentes das fachadas, como ornamentos e blocos de pedras, foram reutilizados para a construção de casas, igrejas e as muralhas da cidade. Quando as muralhas foram demolidas entre 1868 e 1884, esses blocos foram agrupados e expostos na igreja Notre-Dame de Lamourguier, que se tornou depois um museu. Hoje, estes blocos estão expostos no ‘muro lapidário’ do Narbo Via. Outros artefatos encontrados em escavações estavam armazenados em locais diversos e estão agora todos reunidos no Narbo Via.

Arquitetura

O museu fica na entrada sudeste da cidade para quem chega de carro pela rodovia A9, marcando um ponto de transição entre o meio rural e urbano. De transporte público do centro, é possível chegar no museu com o micrônibus Citadine 1. Da estação de trem, dá para pegar a Citadine 2 e trocar para a linha 1 na estação “les halles”. Ambas as linhas são gratuitas e circulam a cada 15 minutos (menos nos domingos e feriados).

Museu Narbo Via

Por essa ser uma região mais nova da cidade, menos densa do que o centro, há muito espaço livre. O museu fica de frente para uma rotatória. Do lado oposto, há campos de futebol e nas adjacências há uma arena de espetáculos e um centro de conferências. Nas proximidades, há também o Canal de la Robine, que já inundou algumas vezes no passado. Com isso em mente, o Narbo Via foi construído sobre uma laje elevada. Essa elevação nivela o terreno e protege o museu de futuros alagamentos.

Bancos no jardim do museu

O museu é rodeado por um belo jardim, que dá boas-vindas ao visitante. Além da vegetação e do mobiliário urbano, o jardim conta com um anfiteatro para a realização de espetáculos ao ar livre.

Jardim
Fachada lateral com acesso ao museu

A entrada é feita por uma enorme porta pivotante na fachada lateral noroeste. Este afastamento da via principal oferece um gradual silenciar a medida que se aproxima do acesso. No hall, há um relevo de um mapa da Europa identificando algumas das principais cidades do império romano, entre as quais consta Narbo Martius. Seguindo em frente, há um grande espaço que articula recepção, bilheteria, loja e restaurante. Continuando reto, ao passar as catracas, chegamos no eixo do edifício, onde está o ‘muro lapidário’.

O acesso é realizado através de uma imensa porta pivotante de vidro com esquadria metálica
Relevo do mapa da Europa com cidades romanas na parede do hall
Muro Lapidário

Considerada a espinha dorsal do prédio ou o coração do museu, o ‘muro lapidário’ é uma estante metálica com 10 metros de altura por 76 de comprimento que armazena 760 blocos de pedra remanescentes do período romano. A escala monumental desperta um deslumbramento no visitante, que ganha consciência da sua pequenez tanto numa escala física quanto histórica.

‘Muro Lapidário’, um ponto hierárquico do projeto

Essa parede separa os espaços públicos do museu – acesso, recepção, loja e galerias – dos espaços privativos – de pesquisa, ensino, restauro, depósito e administração. Sua estrutura é vazada, o que permite ao visitante visualizar um pouco do trabalho que acontece por trás. Há ainda uma máquina que fica trocando as peças de lugar de tempos em tempos. Isso traz movimento ao acervo e um senso de novidade, visto que a parede está em constante transformação. Apesar do peso das peças e da dimensão histórica, o movimento das peças atribui uma leveza e fluidez para o acervo.

Degraus tipo arquibancada servem para contemplar o ‘muro lapidário’
Degraus de frente para o muro lapidário

Em frente à parede, degraus tipo de arquibancadas seguem ao longo de todo o comprimento. Além de proporcionar um assento para a contemplação do muro, é um local para a realização de aulas e palestras. A parte baixa é acessível por plataforma.

Plataforma para acessar a parte mais baixa
Grades metálicas separam espaço público visitável dos espaços privativos de restauro.

Nas duas extremidades, a fachada é composta por grandes painéis de vidro, o que permitem a incidência de luz natural no espaço interno. Como as duas laterais mais compridas são opacas, a entrada de luz nas pontas dá uma impressão também de luz no fim do túnel, além de uma ideia de continuação visual entre o interior e o exterior. É como se o eixo principal do edifício continuasse para além da construção.

Continuidade visual entre interior e exterior
O muro marca o eixo do edifício, o que é ressaltado pela clarabóia linear

Entre os espaços expositivos, há galerias para a coleção permanente e temporária. Na ocasião da nossa visita, além das peças da antiguidade (ornamentos das fachadas, mosaicos, objetos como pratos e tigelas etc.) havia também obras de arte contemporâneas que dialogavam com o acervo.

Peças do acervo intercaladas por peças de arte contemporânea

Narbonne é um lugar que fica bem quente nos meses de verão então algumas soluções de projeto contribuem para o conforto térmico; a cobertura de concreto oferece inércia térmica; ela se estende em balanço sobre os caminhos externos, gerando sombra para os visitantes; o pé direito alto nos espaços internos faz com que o ar quente suba, com isso o espaço perto do chão fica mais fresco; a laje elevada do piso também permite a circulação do ar; e para aproveitar do frescor do subsolo, algumas áreas de serviço foram alocadas lá.

Detalhe da parede maciça em camadas de concreto colorido
Recuo do beiral cria um jogo de sombra, como um pergolado.

As paredes maciças são estruturais e foram construídas camadas de concreto colorido.  O resultado se assemelha à tonalidade das pedras resgatadas que datam do período romano. Para isso, a mistura do concreto utiliza terra local, areia, agregados, óxidos amarelos e cimento misturados com pouca água diretamente no local. A execução é feita por camadas, à cada uma com uma leve modificação na tonalidade. O resultado remete às camadas de terra reveladas nas escavações arqueológicas. As paredes de concreto já possuem inércia térmica, mas foi incorporado um isolante térmico nas paredes exteriores.  No topo dos muros, esquadrias contribuem para a ventilação natural, além de oferecer um desprendimento visual da cobertura de concreto cinza das paredes, dando a impressão que a cobertura destacada flutua.

Narbo Via

Recomendo a visita tanto pela história da cidade e as peças do acervo quanto pela arquitetura.

Referências:

Foster and Partners Projects – Narbo Via, 18 de fevereiro, 2024

Archdaily – Museu Narbo Via , 18 de fevereiro, 2024

Archistorm – Narbo Via, 18 de fevereiro, 2024

Nabovia.fr – Architecture, 18 de fevereiro, 2024